AS PRIMEIRAS CRÍTICAS DE AMAZÔNIA

THE DOMINO ELF (NORUEGA) – 08/04/2021

“Bem-vindo à Amazônia e à cozinha de frequência de sons, samplers e natureza de Jean-Michel Jarre. Sim, Jarre está de volta às raízes. Ou seja, as raízes que são músicas concretas. Seu mentor Pierre Schaeffer criou os princípios desse movimento já na década de 1940. O princípio é gravar sons da vida real e depois processá-los pesadamente antes de usá-los como base para a composição musical. Com a entrada dos instrumentos eletrônicos na década de 1960, isso ficou ainda mais fácil, e foi aí que Jarre iniciou sua carreira: fazendo exatamente isso.

Ele voltou aos princípios da música concreta várias vezes durante sua carreira. Em tais casos, misturou sons com sua própria versão de synth pop. O melhor exemplo é provavelmente o álbum Zoolook de 1984, onde ele usou vozes, cantadas e faladas em 20 idiomas diferentes, como base para composição e instrumentação.

Outro grande exemplo, é a brilhante peça ambiente de 47 minutos Waiting for Cousteau de 1990. Nessa faixa, ele misturou sons de animais e da natureza em seu próprio estúdio e criou uma paleta de sons.

O que você encontrará em ‘Amazônia’ é uma bela mistura de música concreta, ambiente e um pouco de música barulhenta, além de chill-out music na veia de The Orb. Verdade seja dita, isso soa como algo que poderia ter sido apresentado em qualquer festival de jazz nos dias de hoje, durante o tipo de apresentações em que os músicos se debruçam sobre mesas de mixagem e Macs. Mexer, torcer e girar botões com alguns instrumentos ‘reais’ de vez em quando.

O pano de fundo deste álbum é uma exposição de fotos com o mesmo nome que estreia em Paris no dia 20 de maio. O fotógrafo e cineasta Sebastião Salgado montou uma exposição onde estarão expostas mais de 200 fotos da floresta amazônica brasileira. As fotos mostram a natureza e a vida dos nativos da região.

E é com esse espírito que Jean-Michel Jarre fez o que acho que ele mais gosta: entrou no estúdio, sua cozinha como ele a chama, e brincou com sons, frequências e fragmentos de melodia de uma forma totalmente impressionista. Os maiores e melhores momentos musicais de Jarre costumam ser criados dessa forma.

Em ‘Amazônia’, Jarre também se misturou ao som da natureza. No entanto, muitos desses sons foram criados por ele mesmo no estúdio. Como ele mesmo diz em entrevistas: Como Felini fez em seus filmes, prefiro criar minha própria versão do oceano, ao invés de usar o oceano real.

Além disso, ele visitou o Museu de Etnografia de Genebra, onde levou consigo para seu estúdio, trechos de canções, falas, músicas e outros ruídos da população nativa da área onde Salgado fez suas fotos. Mas relaxe, isso não é Deep Forest ou Enigma. As vozes são apenas temperos na panela de música que Jarre criou, e nunca são o ponto focal da música.

A música em si é muito ambiente, mas quando você pensa que está ficando presa na vegetação da selva, ela gira, gira e dobra. E então você descobrirá que está indo em uma direção totalmente diferente. De repente, você tem uma linha de baixo forte, complementada por batidas de bateria. A certa altura, você obtém muitos arpejos de sintetizador, que lembram vagamente Arpegiator do álbum The Concerts in China, de 1982.

Você encontrará variações mais do que suficientes neste álbum, apesar de sua natureza ambiental, para manter seu interesse. Ao mesmo tempo, a música dá algumas voltas e de repente você se encontrará de volta a lugares onde esteve antes, antes de ser repentinamente levado para um lugar completamente novo.

Os fãs de Jarre que esperam sons de Oxygène e Equinoxe ficarão desapontados. O mesmo vale para quem preferiu vê-lo fazendo ElectronicaRendez-Vous ou Téo & Téa. Quanto ao resto de nós, e acho que posso incluir com segurança aqueles que geralmente não gostam muito da música de Jarre aqui, este será um tesouro que tocaremos bastante.

‘Amazônia’ também é lançado em versão binaural. Isso proporciona uma experiência de som ‘surround’ ao ouvi-lo com fones de ouvido. Minha crítica foi escrita depois de ouvir a versão binaural do álbum. Nota: 8/10″

Original: https://domino.elfworld.org/jean-michel-jarre-amazonia/|Crítica de Hogne Bø Pettersen

LAUT (ALEMANHA) – 09/04/2021

“É uma coisa assim como o trabalho comissionado. Você está intimamente ligado ao assunto para moldar adequadamente uma visão artística? O premiado fotógrafo e ativista ambiental brasileiro Sebastião Salgado viajou pela Amazônia por seis anos. O resultado dessa viagem estará em cartaz na Philharmonie de Paris a partir de 20 de maio, antes de fazer uma tour pelas metrópoles. A mostra inclui 200 fotos.

A trilha sonora desta exposição foi criada pelo tecladista Jean Michel Jarre. Em 52 minutos, o ainda fresco francês, coloca a sua arte composicional totalmente a serviço do seu cliente. Você sempre pode ouvir certos sons característicos de quem está trabalhando aqui, mas todos os sons e efeitos sublinham o grande projeto de representar a Amazônia em som.

Jarre evita o grande perigo de se entregar ao kitsch da world music reunindo-se com cientistas do Museu de Etnografia de Genebra. Sua visão da Amazônia parece em primeiro lugar, como um fluxo de um álbum ambiente incrivelmente belo, em que apenas batidas suaves bem sutis podem ser ouvidas. O mestre do kitsch eletrônico, remove quase completamente do seu repertório, a opulência exuberante que às vezes caracteriza suas obras. Gravações de campos, sons de instrumentos musicais indígenas e amostras de falas e cantos, expandem o espectro sonoro. Você nunca tem a sensação de que está ouvindo um conceito artificial.

Fogo crepitante: um tema recorrente no universo de Jarre. Ele se casou com o chilrear dos insetos, o barulho das águas e o chilrear dos pássaros com seus sons eletrônicos em uma viagem fascinante. Nesta qualidade e intensidade, só estamos acostumados com isso pelo grande mestre ambiente Geir Jensen, também conhecido como Biosfera. ‘Amazônia’ acrescenta outra faceta à discografia do francês, que não se poderia esperar desta forma.

A pintura musical da ‘Amazônia’ de Jarre é caracterizada por cores esplêndidas, pois ele se concentra em retratar a beleza deste pedaço de terra. Às vezes, sons perturbadores e distorcidos também podem ser ouvidos, mas o álbum de nove partes vive principalmente de um clima consistentemente harmonioso e orgânico. Que pode ficar muito perigoso na floresta tropical e que a ameaça ao biótopo representada pelos humanos, não se reflete nele. Mas você também não pode ter tudo.

Sim, o contrato de trabalho é uma daquelas coisas. Jarre está comprometido com a proteção ambiental há décadas e foi premiado pela UNESCO em 1993. Nesse sentido, os criadores do projeto escolheram exatamente a pessoa certa.” 

Original: https://www.laut.de/Jean-Michel-Jarre/Alben/Amazonia-116061|Crítica de Alexander Cordas

ONET (POLÔNIA) – 09/04/2021

“É divertido ser Jean-Michel Jarre. Legal, porque com quase 73 anos (completará em 24 de agosto), ele parece vinte mais jovem. Legal, porque você pode usufruir do status de criador da música eletrônica mais popular da história, ao lado do Vangelis. Não é à toa, já que você lançou álbuns populares como ‘Oxygène’, ‘Équinoxe’, ‘Zoolook’, ‘Rendez-Vous’ e Revolutions. E se somarmos todos os álbuns que ele gravou, já se foram mais de 80 milhões de cópias vendidas. E também é ótimo porque há várias citaçõess no Guinness Book of Records: o mais importante foi para a realização do maior concerto da história, em 6 de setembro de 1997, durante o 850º aniversário de Moscou, comemorado com um evento em grande escala. Francês, filho de um compositor de trilhas sonoras que morreu em 2009.

A questão é se ‘Amazônia’, o vigésimo primeiro álbum de estúdio do artista, também pode ser chamado de legal. A resposta que vem à mente depois de ouvi-lo muitas vezes é bastante simples: não era disso que se tratava. Se alguém, ao buscar este álbum, espera um hit ao estilo ‘Oxygène 4’, ‘Equinoxe 5’, ‘Souvenir of China’ e ‘Fourth Rendez-Vous’, ou seja, peças instrumentais que também encantaram os fãs poloneses criados nos anos 1970 e 1980, ou mesmo a disponibilidade do recente álbum Equinoxe Infinity, vai se decepcionar um pouco. Felizmente, não são os sucessos que provam o valor da música. Jarre também é um artista que frequentemente fala sobre assuntos importantes para o mundo e está envolvido em várias ações sociais, políticas e humanitárias. Ele também é um embaixador da boa vontade da UNESCO, com foco em questões da juventude, tolerância, defesa do patrimônio mundial e do meio ambiente. E foi este último que motivou a criação deste álbum.

‘Amazônia’ é, enfim, trilha sonora, mas não de filme. São 52 minutos de música preparada por Jarre para a extraordinária Exposição ‘Amazônia’. São mais de 200 fotos da floresta tiradas por Sebastião Salgado durante sua jornada de seis anos. A mostra, acompanhada pela música do francês, será inaugurada na Philharmonie de Paris no dia 20 de maio, e depois segue para São Paulo, Rio de Janeiro, Roma e Londres.

A intenção de Jarre não era criar uma ilustração comum, mas dar aos visitantes da Exposição, a impressão de que tinha um contato quase tangível com o mundo nelas capturado pelas lentes de Salgado. Por isso buscou não só instrumentos eletrônicos e acústicos, mas também sons reais da natureza ou das línguas dos povos que habitam a Amazônia. Como ele mesmo se explica, não queria ser fiel a uma etnia, mas mostrar a riqueza natural do mundo, que está ameaçado de aniquilação devido à atividade humana impensada.

Separada da Exposição, a música de Jarre, dividida em 9 partes, funciona melhor como uma obra ideal para a contemplação, afetando o ouvinte de forma quase hipnotizante. Esta música é minimalista por natureza, e surpreendentemente, não é fácil de se lembrar, mas harmoniza-se elegantemente com os sons do mundo que ilustra. Há algo do minimalismo de Philip Glass, a calmaria de ‘Soil Festivities’ de Vangelis ou a riqueza da trilha sonora do filme ‘Baraka’, mas também muitos elementos característicos da obra do francês. Um álbum exigente, não necessariamente para fãs de soluções musicais fáceis, mas que vale a pena enfrentar. Nota: 4/6″

Original: https://kultura.onet.pl/muzyka/recenzje/plyty-tygodnia-recenzja-demi-lovato-jean-michel-jarre-dagadana-krol/s5xmvbe|Crítica de Bartosz Sąder

FÓRUM (BRASIL) – 09/04/2021

“O resultado do projeto é tão belo e grandioso quanto o seu enunciado. Uma exposição do renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado sobre a Amazônia com trilha sonora do músico francês Jean Michel Jarre, o papa da música eletrônica.

Salgado, assim como fez em outros projetos seus, percorreu a selva brasileira durante seis anos. Fotografou os povos, rios e montanhas, enfim, documentou toda a majestade da região. O resultado leva a sua marca, ou seja, é repleto de beleza indescritível.

Os sons, coletadas no coração da floresta amazônica, criam a ambiência sonora para as imagens de Salgado a partir do barulho das árvores, o grito dos animais, o canto dos pássaros ou as cachoeiras que correm do topo das montanhas.

Sobre a construção da música, Jarre diz ainda que ‘era necessário voltar aos princípios da orquestração dos sons da natureza, trabalhar a partir de sons que se seguem aleatoriamente, mas que podem compor uma harmonia ou uma dissonância. E como em qualquer sinfonia, a obra tem momentos de clareza ou tensão’.

O ponto curioso de tudo, sobretudo da música de Jarre, é que ela só pode ser construída, assim como toda a sua obra, a partir da tecnologia. Samplers, sintetizadores, sons recortados e realinhados a partir de modernos processadores são os instrumentos usados por ele para traduzir toda a ancestralidade que se espalha pela floresta.

O talento e a fluidez com que o músico transita já há décadas por esse universo, fez com que sua trilha não virasse um mero pastiche da obra do fotógrafo. Os sons de Jarre são críveis. Ao mesmo tempo em que parece ter reverenciado seu objeto, não se furtou a tecer comentários sonoros com a mesma intensidade, belos e grandiosos.

O receio de que a música de Jean-Michel, em alguns de seus momentos, não sobreviva fora da exposição, o que ocorre frequentemente com trilhas sonoras, é infundado.

No auge da maturidade artística, com 72 anos, o músico foi fulminante em seu tecido sonoro. Consegue um paralelo indescritível de sons às imagens do seu parceiro, Sebastião Salgado, outro visionário inovador aos 77.”

Original: https://revistaforum.com.br/cultura/jean-michel-jarre-lanca-o-album-amazonia-trilha-para-exposicao-e-livro-de-sebastiao-salgado/|Crítica de Julinho Bittencourt