DIA DA BASTILHA: LEIA O DEPOIMENTO DE JORNALISTA ITALIANO QUE ASSISTIU AO PRIMEIRO CONCERTO DE JARRE

43 anos após o primeiro grande concerto de Jean-Michel Jarre, na Place de la Concorde em Paris, o Jarrefan Brazil publica o depoimento do jornalista italiano Sandro Giustibelli. Ele estava lá cobrindo o evento para a Revista “Ciao 2001”. A matéria foi publicada na edição de número 31, Ano XI, com data de 5 de agosto de 1979.

JEAN-MICHEL JARRE & A FESTA FRANCESA

Grandioso concerto parisiense de Jean-Michel Jarre e seus teclados espalhados em um palco localizado na Place de la Concorde. Tocando sua música como um pequeno homem-som, alquimista das atmosferas do futuro, no centro de um grandioso mecanismo, Jarre celebrou a tomada da Bastilha com milhares de franceses.

Eu fui a Paris com a convicção de ver e, claro, ouvir um concerto de Jean-Michel Jarre e, em vez disso, sem saber, acabei na maior, mais inteligente e mais colorida orgia de som, imagens e barulho que já me foi dada no centro histórico de uma capital europeia.

A Place de la Concorde, já desde o início da tarde, oferecia um espetáculo bastante inusitado aos meus desacostumados e modestos olhos italianos. No centro do imenso espaço aberto, um palco de três metros de altura inchado com teclados de todos os tipos, e transbordando de sofisticados equipamentos eletrônicos e luzes de todas as cores e de todas as intensidades voltadas para o próprio palco, para a praça, para o obelisco egípcio que adorna o centro, e para as duas esplêndidas fontes nas laterais. Na orla (que com as ruas adjacentes absorveram mais de trezentas mil pessoas à noite) estava instalado um monstruoso equipamento de amplificação que garantiu a audição perfeita da performance de Jarre em todos os pontos da praça. Como se não bastasse, de um lado do palco, havia uma série de projetores de slides cuja função, naquele momento, eu não entendia, pois estavam de costas para o palco e não havia telas naquele local. Lasers em todos os pontos estratégicos, enormes globos giratórios de três metros de diâmetro feitos de pequenos espelhos, e câmeras de TV (estamos falando da Eurovision), trilhos, operadores, técnicos e trabalhadores, numa produção de dar inveja a todos os funcionários da Cinecittà (complexo de teatros e estúdios situados na periferia oriental de Roma, responsável pela maior parte da produção cinematográfica italiana).

Saio da praça e continuo um passeio fugaz pelos arredores e o movimento, as pessoas, o trânsito, os fogos de artifício que sobem e explodem constantemente e as gargalhadas dos jovens, dão exatamente a ideia do entusiasmo com que os franceses encaram este dia em particular: 14 de julho, aniversário da tomada da Bastilha e feriado nacional francês.

Volto ao local à noite para o fatídico e aguardado encontro com a música (mas agora não só isso) de Jean-Michel Jarre: mago do som eletrônico por excelência, companheiro de infância dos fios elétricos, teclados elétricos, osciloscópios, Moog, VCS-3, ARP, etc. A paisagem era impressionante. Centenas de milhares de pessoas contornavam as grades centrais com tenacidade e paciência nunca vistas antes. Alguém desmaiou e ficou aliviado ao ser resgatado pelo serviço de segurança. Levamos mais de meia hora para chegar ao centro da praça desde a rua onde o ônibus, paralisado pelo trânsito, nos deixou.

Agora já está de noite: as fontes se iluminaram, o obelisco se iluminou de forma colorida, o palco também se ilumina. E lá está Jean-Michel Jarre. Parece um pouco tenso, expressão desenhada mas satisfeita, camisa prateada, passo ondulado e nervoso. Ele se aconchegou e finalmente ficou à vontade com seus teclados e, enquanto de forma solene e descontraída, começou a semear as notas da primeira música (que é uma variação um pouco mais ampla e etérea de Oxygene), os mega-projetores começaram automaticamente a enviar imagens nas esplêndidas fachadas do Ministério da Marinha, do Hotel Crillon, e na distante e bela Igreja de Madeleine, que fica no meio dos dois prédios.

As primeiras imagens são os símbolos da liberdade que assumem formas e cores alternadamente realistas e abstratas. Ao mesmo tempo, os lasers atingem as enormes bolas de espelhos que giram em seus postes, e lançam raios nos prédios e nas pessoas com uma infinidade de pontos de luzes malucas. Um show mal visto. E ele, Jean-Michel Jarre, pequeno homem-som, alquimista das atmosferas do futuro, no centro deste grandioso mecanismo de imagens e sons, estava atento e empenhado em gerar aqueles sons que o tornaram tão famoso na França e conhecido no exterior. Movimentos mágicos de borboletas dos anos 2000, de olhos tristes, de arco-íris, de lábios e flores, misturaram-se perfeitamente sincronizados com as notas seguras e penetrantes do VCS-3 de Jarre, seus Moogs, seus sonhos ou seus pesadelos que talvez só nesta noite, ele consiga pela primeira vez divulgar totalmente ao seu público.

Foi, portanto, uma alternância contínua de temas diferentes, de situações inesperadas e, claro, de mudanças de cores, formas, movimentos, fumaças que de repente saíram de baixo da plataforma mais alta do palco, e que deram definitivamente a Jarre, uma definição mais lúcida: de artista no concerto, de anjo cibernético, de cientista eletrônico, e de triste documentarista de uma era humana, ecológica e socialmente dramática. A parte seguinte do show pertenceu a Equinoxe, o segundo e mais recente LP de Jarre. Entre as notas foi possível ouvir flashes de “La Marseillaise” que foi recebida com aplausos pelo público. Foi um momento de re-encenação histórica: os slides, sempre sincronizados com o som, cruzaram a conturbada história tricolor francesa, com imagens originais da era revolucionária, agora contemporânea. As cenas projetadas nos padrões inusitados, tinham um tom escuro que misturou azul e vermelho, num crescendo de ritmo e movimento. As duas cores se dissociaram e se instalaram cada uma em um lado da praça quando uma enorme foto de fundo branco ocupou toda a fachada da Igreja de Madeleine formando uma bandeira nacional com um tamanho de base de 300 metros e 25 de altura. Depois disso o tema musical se desfez em ruídos sem melodia, enquanto Jarre foi obrigado a fazer uma ginástica ininterrupta para pegar a tecla certa no teclado a tempo, que entre vários equipamentos eletrônicos, ficava a dois metros de distância.

E na evolução da música, num crescendo de sons e vibrações eletrônicas, enquanto as imagens e cores que distorciam as fachadas do Ministério e da Igreja se sucederam em equilíbrio ao som de Jarre, uma avalanche de fogos de artifício de mil formas e de mil cores, de repente ganharam vida além dos Jardins das Tulherias, esplendidamente iluminados, dando a Jarre um tapete rítmico para a melodia do homem que virá de sua jornada histórica, dessa tristeza transparente e existencial que paira, e nunca foi abertamente declarada nas composições de Jarre.

Das varandas altas dos Jardins das Tulherias, jorraram fontes luminosas de fogos. Do distante, mas altamente visível Arco do Triunfo, feixes de luzes tricolores dividiram a noite ao meio. E enquanto as imagens estavam prestes a encontrar a paz num vai e vem lento, relaxante e harmonioso, as vibrantes propostas elétricas de “Oxygene” ganharam vida no ar que Jarre, lembrado em voz alta pelo povo, se comprometeu a dar (o concerto foi gratuito).

Ao final, “Equinoxe” foi reinterpretado variando as tonalidades, levando-o para compassos e tempos mais amplos e arejados. Os fogos foram lançados numa distorção de cores que os conduziu inevitavelmente do verde, vermelho e prata do início, para o azul, branco e vermelho no final. Na sua “estação espacial” Jean-Michel cumprimentou a multidão satisfeita com um sorriso. Jovens, velhos, muitas mulheres e muitas meninas o saudaram.

E as notas dos monstros eletrônicos amigos de Jean-Michel, misturaram um passado histórico que materializou âncoras nas fachadas dos edifícios da Place de la Concorde. Nas imagens projetadas como nos olhos das pessoas, nos cocares tricolores tão comoventes, mas tão inexoravelmente velhos. Com o espaço do futuro, da era cibernética, das sensações programadas, das emoções sem vazão, do homem novo, enfim, cada vez mais perfeito, cada vez menos homem.

Texto e fotos: Sandro Giustibelli
Fonte: Revista Ciao 2001 – Número 31, Ano XI|5 de agosto de 1979