TRAX MAGAZINE ENTREVISTA JARRE SOBRE FAIXA “EXIT” COM SNOWDEN

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A revista francesa de música eletrônica, TRAX Magazine, divulgou em seu site no último dia 15/04, uma entrevista com o músico francês Jean Michel Jarre, na qual ele faz revelações sobre a parceria na faixa “Exit” com o delator americano, Edward Snowden, a quem considera um herói moderno! “Exit” será parte do álbum “ELECTRONICA II – THE HEART OF NOISE”.

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TRAX: O que você pode falar sobre a gênese desta colaboração?

JEAN MICHEL JARRE: Acabei de voltar de Moscou, onde eu conheci ele fisicamente pela primeira vez. Foi antes de ontem (N.E. entrevista com a Trax realizada dia 5/5). Para falar da história desde o início, fiquei impressionado com Edward Snowden no primeiro dia, porque me fez lembrar de minha mãe. Minha mãe era uma grande figura da Resistência em Lyon, onde ela se juntou em 1941. Mais ou menos com a mesma idéia em que Snowden fez o seu “coming out”. Quando um governo gera coisas inaceitáveis, há pessoas que têm de se levantar. E muitas vezes elas se levantam apesar da opinião da maioria. Em 1941, quando minha mãe se tornou parte da Resistência,foi uma daquelas pessoas que foram consideradas por muitos como os traidores no poder. Petain, colaboracionista nazista, era o que ele “tinha que fazer”. As pessoas que, em seguida se levantaram foram rejeitadas. Esta é exatamente a história de Snowden.

A margem entre o herói e o vilão é obviamente subjetiva. Snowden tocou-me por isso. Esse cara, inteligente e hacker, comprometeu-se aos 21 anos fazer o mesmo tipo de trabalho, criptografar os documentos da CIA e NSA. Ele foi nomeado para um cargo importante para sua idade, e ele acabou encontrando um dilema: quanto mais teve acesso a esses documentos mais ele percebeu que a organização a que ele pertence estava violando a privacidade de seu país, sua família, seus amigos, e, por extensão, do mundo. Ele começou a se perguntar: eu revelo isto ou não?Então ele não fala nada com sua namorada ou seus pais e vai para Hong Kong, onde é barrado. Entra em contato com uma garota chamada Laura Poitras que dirige o documentáro “Citizenfour” (documentário sobre as revelações de Snowden, vencedor do Oscar) e sua história toma um rumo diferente.

T: Como você chegou a imaginar uma colaboração com ele? Você também deve ter pensado em Julian Assange.

JMJ: É diferente. Através deste álbum duplo, Electronica, é também a questão da nossa interação diária com a tecnologia. Laurie Anderson colabora por exemplo na faixa “Rely on Me”, na qual o tema é a nossa dependência dos celulares, smartphones. “Swipe to the Right” “, colaboração com Cindy Lauper, é uma canção de amor na era do Tinder.

Há também essa relação ambígua com nosso smartphone: Ele possui o mundo em nosso bolso, temos acesso a informações sobre tudo, em todos os lugares, e, ao mesmo tempo, isto é apontado pelo mundo. Eu queria expressar isso, mas não de uma forma artisticamente política. E desde que este álbum é um disco de colaboração, por que não trabalhar com alguém que está realmente relacionado à tecnologia, uma criança digital, que também usa os plug-ins, mas e nós por outro lado? Foi assim que a ideia surgiu.

T: Isto não foi difícil de por em prática?

JMJ: Foi complicado, porque primeiro eu perguntei como encontra-lo! A apenas alguns meses, eu estava em contato com jornal The Guardian, para promover a primeira parte do meu álbum. No final da nossa conversa, perguntei ao chefe do caderno de Cultura se era possível entrar em contato com Edward Snowden, pois o The Guardian foi a base das revelações dele. Meio confuso, ele disse que sim e me perguntou por quê. Disse pra ele o que iria realmente fazer, porque não tinha nada a ver com a nossa conversa sobre a primeira parte do álbum. E eu não estava mentindo, porque era para o segundo álbum!

O jornalista que entrevistou Edward Snowden me colocou em contato com seu advogado em Nova Iorque, especializado em direitos humanos e liberdade de expressão. Um cara super legal chamado Ben Wizner. Ele me disse que Edward Snowden ficou encantado com a idéia e, além disso, ele adora música eletrônica. Para ele, música eletrônica, era os sons dos 8-bit Commodore, os primeiros jogos de vídeogame. É engraçado que nós temos isso em comum. Seria, portanto, uma primeira reunião.

Snowden me enviou um longo endereço URL, que eu tive que escrever na mão, e me informou que as 17 horas ele precisava  que eu estivesse na frente da minha tela do computador. Eu já estava em um estúdio com uma grande tela. Às 17h, eu estava com o meu gerente Louis, colocando câmeras no lugar para filmar toda a nossa entrevista. Eu não sabia o que iria acontecer. E, finalmente, ele apareceu na tela do meu estúdio. Tivemos uma hora e meia por videoconferência, falamos sobre tudo. Foi super embolado. Eu já tinha enviado um modelo musical, e ele respondeu muito bem.

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T: Por que você foi encontra-lo novamente em Moscou?

JMJ: Quando eu comecei a título de trabalho um pouco mais profundo, nós pensamos que seria bom ele também estar presente em festivais e concertos. Nós conversamos muito sobre isso, porque ele não pretende ser um símbolo de nada. Eu disse a ele que o símbolo é o que expressa, o que ele fez, suas ações, ao invés dele como pessoa.No fim ele concordou com as filmagens.

Organizar a reunião em Moscou levou muito tempo. Na semana passada, nós fomos lá por três dias, nós filmamos os planos da cidade e do metrô para o clipe, e foi filmado durante três horas. Ele veio para o hotel onde eu estava hospedado. Eu não fiz ideia da onde ele veio.

T: Deve ter tido um monte de precauções

JMJ: Realmente era como um filme de espionagem. Ele me chamou e disse: “Seu convidado está a caminho, seu objetivo e convidado está com fome e se você pedir um cheeseburger para ele, seria ótimo!”. Nós tivemos um grande momento, é um grande cara. Nós falamos sobre muitas coisas, música, gravação, opiniões… Ele queria falar coisas em francês sobre o estado de emergência, para explicar de forma inteligente que o estado de emergência não é uma resposta a uma ação mas pode ser uma contra resposta.

T: Sairá quando?

JMJ: Hoje! Haverá o clip, é claro, e imagens param a cena. No momento do lançamento de ” Exit “, terei um pote cheio atrás de mim. Embora eu sou contra artistas que transformam a cena em um fórum político.

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T: Realmente? Como Massive Attack?

JMJ: Massive Attack, é diferente. Eu estava pensando mais em Bono. Nós não somos jornalistas, somos artistas. Através de nossa música, nossos textos, pode ser relevante. Mas parar de tocar e começar um discurso para salvar o mundo, que eu não sinto isso também. Mas eu acho que em um álbum como DJ ou até mesmo um jovem leitor, como a Trax, isso é bom.

Hoje, para a geração que cresceu com BFM TV, a referência é Marine Le Pen. Não é tão ruim para dar as pessoas outros pontos de vista, como Snowden, esse cara tem 30 anos e levanta a questão do nosso futuro em relação à tecnologia, a Internet, o compromisso individual. É atemporal e toca cada geração com a idade de reflexão.

T: O meio mudou e nós sentimos que isso muda tudo, quando na verdade não.

JMJ: Exatamente. Foi dito na geração da TF1 que as crianças seriam completamente obcecadas pela TV. Hoje, os adolescentes não assistem todos os canais do TF1, e acho que a próxima geração terá um link cara a cara com o YouTube, o fato de filmar suas meias, cueca e sanduíches pensando que interessa o mundo todo. Cada geração tem seus guerrilheiros, contra os seus poderes. E hoje, contra os poderes são mais importantes do que nunca encontrar. É por isso que eu queria fazer uma caminhada com ele e acho que ele é um bom lugar no álbum.

T: E também é o fato que a música eletrônica tornou-se a música da era da Internet.

JMJ: Exatamente. Esta discussão é impossível fazer com outros títulos da imprensa na França. Como você acabou de dizer, o que é interessante é a relação entre música eletrônica e a tecnologia. Para eles, a música eletrônica já é abstrata, em seguida, a tecnologia é relacionada… É como o rock e os movimentos sociais na época de Bob Dylan. Hoje, o que cola para a sociedade? Isto é a música eletrônica. Para mim, esta é a razão deste projeto.

Fonte: http://fr.traxmag.com/interview/32921-jean-michel-jarre-feat-edward-snowden-l-histoire-d-un-morceau-impossible