JEAN-MICHEL JARRE: “EM BREVE PODEREMOS REALIZAR CONCERTOS NA TORRE DE BABEL OU NA ATLÂNTIDA”

O artista francês publica ‘Welcome to the Other Side’, um álbum que reúne em Realidade Virtual sua performance ao vivo na Catedral de Notre-Dame

Diário ABC – Espanha – 08/09/2021|Reportagem de Nacho Serrano

“Era uma vez um DJ anexado a um monumento, era uma vez um monumento superlativo…”. Assim poderia começar a biografia do grande Jean-Michel Jarre, um artista que já tocou na Torre Eiffel, nas Pirâmides do Egito, na Acrópole de Atenas ou na Cidade Proibida de Pequim, sempre diante de grandes multidões, com impressionantes exibições de luzes e som, e que nem mesmo a pandemia foi capaz de evitar essa megalomania. Ele fazia isso apenas no mundo real, até que no último Réveillon, ofereceu um concerto de dentro de uma Catedral de Notre-Dame recriada em Realidade Virtual, que foi assistido ao vivo por centenas de milhares de pessoas em todo o mundo, e que agora está sendo lançado em formato de álbum.

“Quando o cinema foi criado, as pessoas começaram a ver eventos massivos em uma tela. É mais um passo no mesmo caminho”, explica o famoso músico francês. “Nesse sentido, a Realidade Virtual é o cinema da nossa geração. E pode se tornar outra forma de arte, especialmente em tempos de pandemia e confinamento como aqueles em que vivemos”. Embora este lançamento abra uma nova era de gravações ao vivo, Jarre não se sente um pioneiro: “Eu não fui um pioneiro quando comecei no mundo da eletrônica. Só estava no lugar certo, na hora em que algo novo estava nascendo. É o mesmo com a Realidade Virtual. Só quero ir mais longe com os instrumentos disponíveis, assim como fiz com a eletrônica”, diz o tecladista, que idealizou este projeto de forma realmente surpreendente. “Foi graças ao videogame ‘Assassin’s Creed’. Depois de ver sua recriação de Notre-Dame, entrei em contato com a empresa criadora, a Ubisoft. Expliquei que seria muito interessante fazer um concerto com aquelas características, ligando o Renascimento da época em que foi construído com o renascimento que espero que haja depois desta pandemia”.

As relações entre música e videogames se intensificarão no futuro? Será que veremos empresas de videogame contratando músicos para fazer shows em uma praça do ‘Grand Theft Auto’, como já foi feito no ambiente virtual do ‘Fortnite’? Jarre está convencido de que sim: “Acredito que o potencial dos videogames para recriar cenários será cada vez mais aproveitado em shows virtuais. Poderemos tocar em qualquer lugar da nossa imaginação, mesmo no espaço, ou em lugares que já desapareceram como a Torre de Babel. Poderemos atuar até na Atlântida”.

Existe, talvez, um ponto fraco neste presságio. A indústria da música de hoje é baseada no público que não quer mais possuir música gravada, mas viver experiências únicas e massivas. Algo que não pode ser feito agora, mas que deve voltar e até eliminar o desejo de qualquer imitação virtual assim que o Coronavírus estiver sob controle. Jarre garante que seus sentimentos ao final do concerto de Notre-Dame foram “estranhamente parecidos com os de um show normal”. Mas será que o público teve essa mesma sensação? “Os avatares da plateia pulavam, dançavam. Acho que para eles, de certa forma, também houve emoções semelhantes. No fundo, somos animais profundamente físicos. Gostamos de tocar e sentir os outros, mas tudo muda tão rápido que nunca se sabe”. O que ele não vê com clareza é que projetos como o de Björn Ulvaeus, do ABBA, estão proliferando. “Sou a favor de unir o mundo real e o virtual, mas mantendo a essência de ambos e fazendo evoluir os dois juntos. Se o avatar é usado apenas para substituir o ser humano, não acredito muito nele”.

Depois de lançar este álbum virtual ao vivo com conteúdo bônus (um ‘Making of ‘, Masterclass, etc…) em vários formatos (também em vinil, “o que é um bom oxímoro”, diz o autor), Jarre irá mergulhar em seus próximos dois projetos: “O primeiro será um estúdio de gravação virtual, e o outro será a criação de uma escola de música online, onde músicos que foram trabalhar na Amazon ou no Uber por causa da pandemia terão um lugar para continuar progredindo e aprendendo, de forma gratuita”. Isso realmente está mudando a realidade real.

Fonte: abc.es