JARRE E ANTHONY BURGESS QUASE TRABALHARAM JUNTOS EM FICÇÃO-CIENTÍFICA

A Fundação Burgess, postou em setembro em seu site oficial a informação de que o escritor britânico Anthony Burgess (1917-1993) e o músico francês Jean Michel Jarre foram grandes amigos a ponto de chegarem a colaborar juntos em um projeto depois abandonado de um filme. Junto a informação do projeto, existe uma foto em polaroid, de data incerta (possivelmente em meados dos anos 80), com Jarre, Burgess e a atriz Charlotte Rampling (na época, esposa de Jarre). Segundo a Fundação, é um dos itens mais inesperados da coleção de fotos do famoso escritor.

Charlotte Rampling, Anthony Burgess e Jarre

A Fundação Burgess informou que Jean Michel Jarre e Anthony Burgess mantiveram em segredo uma colaboração artistica durante um determinado período, principalmente trabalhando juntos em um roteiro de um filme intitulado “Dawn Chorus“. O roteiro, escrito por Burgess, fala de uma artista musical chamada Tessa Rushworth, que misturava cantos de pássaros exóticos com sons eletrônicos para criar sua arte. O filme começa com ela em uma “zona tropical indefinida” procurando na selva por mais canto de pássaros. Ela está presa em uma escaramuça envolvendo revolucionários de guerrilha e choca com sua Land Rover, perdendo a visão no processo. Ao retornar à Grã-Bretanha, ela retoma seu trabalho em seu “laboratório sonoro” e acaba sendo “testemunha” de um assassinato. Ela acredita que o assassinato foi perpetrado por um político fascista chamado Penninck e ela acaba se juntando com um escritor para investigar enquanto está sendo perseguida por visões de seu acidente misturado com os sons do assassinato. Eventualmente, ela recupera a visão através da cirurgia a laser, apesar de fingir ser cega para derrotar Penninck com um ruído agudo de seu laboratório sonoro.

O roteiro seria pra um filme de ficção-científica distópica futurista com alguns toques estranhos: os personagens comem bifes de avestruz flambado e almôndegas de canguru com espaguete recheado. Em um bar, há uma jukebox que não toca música, mas emite uma “sinfonia de cores”, enquanto os clientes usam refeições semi-líquidas futuristas. Ao se submeter a cirurgia a laser, Tessa tem visões de um soldado sorridente empalando o olho  de uma criança com sua baioneta gritando de dor.

A influência de Jarre no roteiro pode ser vista nas cenas do “Laboratório Sonoro”, que apresentaria muitas das máquinas eletrônicas que Jarre usa para compor sua música. Além disso, quando Tessa realiza um concerto de sua música, ela se assemelha às performances públicas de Jarre: seu stagecraft é reforçado por um show de luz laser e acompanhado de “sons eletrônicos estranhos”. Também é evidente que o papel de Tessa foi escrito com a atriz Charlotte Rampling em mente. O roteiro foi desenvolvido entre 1983 a 1988, mas nunca foi finalizado ou publicado oficialmente.

Os gostos de Burgess na música tendiam mais ao clássico, mas a Fundação deixa claro que ele apreciava a herança musical de Jarre e a experiência de sua música: a coleção de vinil na Fundação Burgess contém cópias de Oxygène(1976), Équinoxe (1978), Les Chants Magnétiques (1981) e o álbum ao vivo Les Concerts en Chine (1982).

 

Jarre considerava Burgess com grande carinho. Em uma entrevista de 2016 à revista Electronic Musician, ele lembra-se de falar com Burgess sobre arte: “Lembro-me de uma conversa muito interessante que tive com o escritor britânico Anthony Burgess, onde ele me disse que quando escrevia uma novela e tinha os personagens que todas as manhãs estavam ao redor da mesa. E de repente ele estava controlando cada vez menos até se revelarem como as versões finais. E é isso que eu sinto sobre os sons: estou esperando apenas usá-los como atores independentes no meu cenário “[sic].

Em outra entrevista, desta vez com o jornal alemão Süddeutsche Zeitung, datado de 2004, Jarre é ainda mais claro sobre o quanto o Burgess quis dizer: “Um dos meus amigos mais próximos foi Anthony Burgess. As cores ousadas usadas por ele. Mas ele também teve histórias para contar, histórias escuras, sérias e no entanto, extremamente engraçadas. Ele poderia apenas escrever. Sinto muito a sua falta.”

Anthony Burgess foi um prolífico e controverso escritor, grande parte da sua obra ainda permanece no anonimato, sendo lembrado principalmente pelo décimo oitavo livro, Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1962). Seus livros, críticas e resenhas são marcados por grande sátira social. “Laranja Mecanica” foi transformado em um controverso filme de grande sucesso nas mãos do diretor Stanley Kublick em 1971.

Fonte:

https://www.anthonyburgess.org/object-of-the-week/object-week-polaroid-jean-michel-jarre/