Entrevista para jornal do metrô alemão

2010

No dia 22/01, o músico francês Jean Michel Jarre deu entrevista ao jornal alemão Subway, distribuido no metrô de Berlim. Alguns pontos da entrevista:

SUBWAY – Como você teve tempo para o rock’n’roll antes da música eletrônica ?
JMJ – Naquela época (anos 60) eu tocava em bandas na mesma direção que o The Who e The Yardbirds. Mas sempre tentando uma aproximação com a transformação sonora, gravando e mixando em fita como no rock progressivo. Antes de “Oxygene” eu já havia feito um monte de música eletrônica diferente. Isto foi por volta de 1967-1968. Um experimento muito progressivo. Eu tinha um sonho de criar com “Oxygene”, uma ponte entre a música clássica e a música eletrônica progressiva. Esta foi provavelmente uma das diferenças, com todas as bandas alemãs que começaram na mesma época, como Tangerine Dream ou Kraftwerk. O Kraftwerk, por exemplo, se dedicaram eles mesmos a criar algo robótico e sons mecânicos e tecnológicos. Eu sempre tive uma interpretação diferente do som. Isto é, como uma pintura abstrata. Inspiradas em Jackson Pollock. Isto sempre foi para mim como cozinhar. Frequências, texturas e cores, misturadas em uma forma sensual. Esta é a nossa principal diferença.

SUBWAY – O KRAFTWERK te inspirou de alguma forma? Existe algum paralelo entre você e eles?
JMJ – Eu acho que houve um desenvolvimento independente paralelo. Eu sempre tive muito respeito pelo Kraft, iniciamos mais ou menos ao mesmo tempo, mas nós tivemos uma abordagem musical diferente. O som deles é mais robótico e o meu mais orgânico e sensual.

 
Jarre na Subway alemã
Jarre na Subway alemã

SUBWAY – Você mantem contato com eles (Kraft)?
JMJ – No começo não havia contato real. A música eletrônica era um som underground e não era parte da música oficial. Nós viviamos em estúdios que era parte do nosso próprio mundo. Não era tão fácil se comunicar como a cena Rock’n’Roll na época.

SUBWAY – E depois vocês vieram a saber um do outro?
JMJ – Sim. De tempos em tempos, em lugares diferentes. Eu realmente gostaria de construir algo onde todos nós poderiamos trabalhar juntos. Talvés um dia, quem sabe.

SUBWAY – Existe filmes que você gostaria de fazer a trilha sonora?
JMJ – Sim, definitivamente. Vários filmes. É claro, filmes de ficção-científica como “Distrito 9”, um grande filme que eu vi recentemente. Também todos do David Lynch, Spielberg e também diretores alemães como Win Wenders. Eu tive um prazer muito grande em ter trabalhado com os diretores alemães, Volker Schlondorff e Peter Fleischmann. Existem alguns novos diretores britânicos e franceses também. Para mim, o trabalho de fazer a trilha de um filme é acima de tudo trabalhar em equipe, então o diretor e eu temos a oportunidade de ser parte de um projeto juntos e não receber um chamado três semanas antes do lançamento do filme para ainda compor a música. Isto não é para mim.

SUBWAY – Então pode demorar um pouco termos uma trilha sonora composta por Jarre?
JMJ – Eu estou pronto, mas depende muito da instrução adequada. E agora estou apenas trabalhando na trilha sonora do filme criado pelos espectadores da turnê “2010” dentro de suas cabeças.

SUBWAY – Seu último álbum “Teo & Tea” é uma mistura diferente da moderna música eletrônica. Por que isto?
JMJ – “Teo & Téa” para mim, foi apenas um experimento. Por outro lado, eu estava interessado em produzir alguma coisa próxima das pistas de dança. Mas eu acho que a musica eletrônica é entendida desde o início dos anos 90 como musica de pista de dança. Você toma como exemplo artistas como Air, Massive Attack e Portishead, então você vê todas estas pessoas fazendo música eletrônica para dançar…”Teo & Téa” foi um experimento que eu NÃO ESTOU mais interessado em fazer hoje.

SUBWAY – Sua música influênciou uma nova geração de músicos eletrônicos franceses como Daft Punk, Justice, ou Cassious. Vc seria o pai destes artistas?
JMJ – Não como um pai, porque eu não me atreveria. Mas eu acho que eu simplesmente tenho aberto muitas portas. Eu posso me considerar sortudo porter iniciado o meu trabalho e minha carreira no momento em que nada existia na música eletrônica. Musicos da minha geração exploraram todo um território virgem e novo. Qualquer um que começar agora (música eletrônica ou rock) começa com tudo já velho. Isto significa que existe uma herança de 40 ou 50 anos passados o que já é difícil para as novas gerações. Existem pontos positivos nisto, mas também pontos ruins. Em todo o caso, agora não há mais aquela inocência e virgindade. Estou influenciando e inspirando muitas pessoas diferentes, mas ao mesmo tempo, sou inspirado pelos novos artistas. Uma troca positiva, eu poderia dizer.

SUBWAY – O que os jovens artistas podem aprender com você?
JMJ – Acho que, provavelmente, o trabalho com texturas, sons e como resolver problemas estruturais. Mas mesmo a abordagem da música a partir de perspectivas diferentes. Não só com a perspectiva da pista de dança.

SUBWAY – E o que você poderia aprender com novos artistas?
JMJ – O uso do Groove e do fato de que muitos deles foram inspirados por um monte de coisas de pop, rock e rap – que fazem uma mistura de tudo o que tem acontecido nos últimos 40 anos, e assim conseguir algo muito fresco. Isto é uma boa fonte de idéias e me ajuda muito.

SUBWAY – Onde você acha que a música eletrônica evoluiu? Onde ela estará no futuro?
JMJ – A Música eletrônica é definitivamente mais orgânica, menos escura e digital, um híbrido entre digital e analógico. . É engraçado, agora todo estes softwares que existem, imitando os instrumentos analógicos e emulados, replicando o mesmo olhar. Eu digo: Por que não levar os originais e desenvolver abordagens pura para o computador digital? Porque existem coisas que não podem ser digitais, mas também outras coisas que podem apenas rodar em um computador. Acho que esta mistura é a ponte entre os mundos analógico e digital, no futuro, se poderá produzir muito mais música interessante.

SUBWAY – O que você acha do MP3, downloads etc?
JMJ – Eu sou Porta-Voz da IFPI (Federação Internacional da Indústria Fonográfica ), que é o orgão responsável pela proteção dos direitos autorais na luta contra a pirataria, em Bruxelas. Eu pedi a alguns anos atrás, no Parlamento Europeu, para impormos uma série de regulações sobre a proteção dos direitos do autor, incluíndo a internet. Hoje, mais e mais vezes pessoas erradas estão sendo caçadas. A empresa que persegue as crianças e dizer-lhes que vocês são os maus e vocês fazem as coisas ilegais. Mas realmente é diferente. Se você ouvir uma rádio, você pode ouvi-lo gratuitamente. Ninguém diz que o que você fazendo é algo ilegal. Você está assistindo a um filme na TV, você pode vê-lo mais ou menos de graça, ninguém diz que é proibido. Por que isso acontece ? Porque os direitos foram comprados pelas empresas de  radiodifusão antes de ouvir a música no rádio. A solução é, portanto, que os fornecedores (provedores) de Internet paguem para trazer a informação também. Essas corporações gigantes lucrão bilhões de dólares nas nossas costas para depois vir dizer que você deve parar os nossos filhos, porque eles são os “caras maus”. Eles não são de nenhuma maneira. As empresas provedoras fazem tudo isto nas nossas costas para aumentar as suas riquezas. Isto é um verdadeiro escândalo e um problema real. Eles devem, finalmente, pagar como todas as estações de rádio e televisão fazem. Isso poderia reajustar tudo e ajudar a resolver a crise.

SUBWAY – Isto é um problema muito grande…
JMJ – Absolutamente. Mas nem por isso. Na verdade, muito simples: É a necessidade de pagar (risos)!

SUBWAY – Existe algum lugar que você gostaria de tocar?
JMJ – No Universo, seria legal tocar na ISS (Estação Espacial Internacional). Isto seria uma boa ideia. Na Terra, ainda existem vários lugares.

SUBWAY – Podemos dizer que você é um megastar, mas não ouvimos nada sobre fofocas sobre você na imprensa internacional.

JMJ – De vez em quando lemos algo sobre mim, mas eu tento evitar isso, porque eu não acho que isso é muito interessante. Eu tento manter minha privacidade e ficar longe dos paparazzi (risos).

Link original em alemão: http://www.subway.de/

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Marcos Paulo

Fã Clube criado em 1997 nos primórdios da internet no Brasil. Buscamos sempre a realização de ao menos uma apresentação do Maestro Jean Michel Jarre em nosso país.