No World Artificial Intelligence Cannes Festival (WAICF), o pioneiro da música eletrônica defendeu uma visão humanista da Inteligência Artificial: uma nova ferramenta de criação destinada a transformar as artes sem jamais substituir o artista.
Não se sabe se a música acalma os ânimos, mas para Jean-Michel Jarre, aos 77 anos, ela parece ser uma fonte perpétua de juventude e experimentação.
Desde Oxygene, álbum fenômeno que vendeu cerca de 18 milhões de cópias e que comemora 50 anos este ano (documentário, livro e edição especial estão previstos para celebrar o aniversário), até os concertos que reuniram milhões de pessoas aos pés das pirâmides do Egito, na China ou na Torre Eiffel, o Papa da música eletrônica francesa e internacional, sempre pensou a música como uma experiência total, no cruzamento entre som, imagem e inovação.
Pioneiro da criação eletrônica e explorador incansável de novos instrumentos, ele introduziu a tecnologia no campo artístico muito antes de ela se tornar um tema de debate social. Seu próximo álbum, com lançamento previsto para 2027, utilizará “amplamente a Inteligência Artificial”. Foi, portanto, natural a participação dele no “World AI Cannes Festival” – evento voltado a profissionais da IA que movimentou o Palais des Festivals, em Cannes nos dias 12 e 13 de fevereiro – para uma conferência intitulada AI – Augmented Imagination (Imaginação Aumentada – leia mais no Rápido & Rasteiro de janeiro de 2026) na qual defendeu a ideia de que as ferramentas digitais podem enriquecer a criação em vez de ameaçá-la.
Você foi um dos primeiros artistas a afirmar que a Inteligência Artificial (IA) poderia ser benéfica para a criação. Por quê?
“É sempre a mesma história com as revoluções tecnológicas. O ser humano tende a pensar que ‘antes era melhor’ e que a inovação vai destruir o que já existe. Vimos isso com a fotografia, que alguns pintores consideravam o fim da pintura. Com o cinema, que preocupava o teatro. Com o streaming, ou ainda com a música eletrônica no início da minha carreira — alguns chegavam a desligar os equipamentos durante os shows. No entanto, historicamente, a inovação trouxe sobretudo aspectos positivos.”
Como você define a IA como artista?
“Para mim, a sigla IA significa menos Inteligência Artificial e mais imaginação ampliada. É uma oportunidade de expandir as fronteiras da nossa criatividade. Os artistas sempre funcionaram ‘colhendo’ aquilo que veem, ouvem e vivenciam. Todos nós temos nosso próprio big data analógico: nossa memória, nossa cultura, nosso inconsciente. A IA atua de maneira semelhante. É uma ferramenta, um colaborador particular — não uma substituta. A IA olha para o passado. O papel do artista é acrescentar algo único: seu estilo. O próximo Miles Davis ou o próximo Gainsbourg não tem nada a temer.”
No entanto, alguns temem que a IA acabe suplantando o artista…
“Isso é confundir a ferramenta com o uso. A tecnologia é neutra. Tudo depende do que fazemos com ela. Podemos usar mal a eletricidade ou a energia nuclear, mas isso não as torna ruins em si mesmas. A IA é uma revolução da mesma ordem que a imprensa ou a eletricidade: pode produzir o melhor ou o pior, daí a necessidade de regras.”
Justamente, a questão dos direitos autorais está no centro dos debates.
“Hoje estamos numa espécie de Velho Oeste. Os modelos de IA se alimentam de conteúdos culturais: sem eles, seu valor seria muito diferente. O mundo da criação deve, portanto, ser parceiro dessas novas entidades. É preciso inventar um acordo global entre cultura e tecnologia e adaptar nossos modelos de propriedade intelectual ao século XXI. Para dialogar com esses profissionais, é preciso compreender suas linguagens.”
Existe o risco de uma uniformização da criação artística com a Inteligência Artificial?
“Ao contrário, ela pode fazer surgir novos estilos artísticos. Esquecemos que é a tecnologia que dita os estilos, e não o contrário. Sem a invenção do violino, certas músicas não existiriam. Sem eletricidade, não haveria rock. Sem os sintetizadores, não haveria música eletrônica. A IA dará origem a novas formas artísticas, isso é inevitável. Acabo de voltar da China, onde pude visitar o ‘Departamento de Música, IA e Neurociências do Conservatório de Pequim’. Lá, a IA é abordada como um novo solfejo. Ela serve o indivíduo e desenvolve sua criatividade, e não o contrário.”
O que pensar de Sienna Rose, essa cantora totalmente gerada por IA?
“Há duas maneiras de ver as coisas. Podemos dizer: ‘Atenção, os artistas humanos estão em perigo’. Ou considerar isso como um ato de criação poética. Inventar uma artista virtual é um pouco como criar um personagem de ficção para um romance ou um filme. Esse personagem não existe na realidade, mas existe no nosso imaginário coletivo. Sempre há, por trás desses projetos, criadores bem reais. Portanto, não vejo isso como uma ameaça, mas como uma forma adicional de expressão.“
O público continuará buscando experiências humanas diante desse avanço do digital?
“Absolutamente. Somos e continuaremos sendo animais analógicos em um mundo digital. Precisamos de contato, de presença, de vibração coletiva. É por isso que os shows nunca estiveram tão fortes. Quanto mais o digital avança, mais precisamos do que é tangível.”


Palestra de Jarre em Cannes. Clique nas imagens para ampliar:






Entrevista para a emissora BFM TV:
Fontes: Jean-Michel Jarre|Nice-Matin|Peter C. Krell|YesICannes|BFM TV|Stefano Landi|Olivier Huitel|Préfet des Alpes Maritimes
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