NO SACEM DAY, ARTISTAS E DIRIGENTES DEFENDEM O DIREITO AUTORAL

Da esquerda para a direita: David El Sayegh, Patrick Sigwalt, Jean-Michel Jarre e Cécile Rap-Veber

A SACEM celebrou no dia 9 de abril seus 175 anos com um “SACEM Day”, que reuniu uma série de artistas e dirigentes: Oli, Pedro Winter, Jean-Michel Jarre, Thierry Breton e também Björn Ulvaeus.

10/04/2026 – Por: Jacques-Guy Le Masne

Fundada em 1851, a Sociedade de Autores, Compositores e Editores de Música (SACEM) celebrou seu 175º aniversário com um dia dedicado: o “SACEM Day” (conforme anunciamos na seção Update no dia 6 de abril), uma oportunidade para fazer um balanço sobre a proteção dos direitos autorais. Ao longo de uma tarde de conferências, os diferentes participantes se manifestaram sobre o futuro da criação musical, oscilando entre o otimismo ligado às possibilidades abertas pelas inovações, a urgência democrática e a vontade de defender a soberania cultural europeia.

Jarre com Cécile Rap-Veber

Patrick Sigwalt, presidente do conselho de administração da SACEM, abriu essa jornada de debates. Em seu discurso de introdução, ele destacou que, longe de ser apenas um simples quadro jurídico, o direito autoral é “um pilar da nossa civilização”.

Ele declarou, em particular: “No século XVIII, para viver da minha arte, eu seria obrigado a recorrer a um mecenas ou a uma encomenda do Estado, submetendo-me assim ao poder do dinheiro ou ao poder político. Há 175 anos, os fundadores da SACEM recusaram essa fatalidade. Hoje, celebramos 175 anos de liberdade a serviço de uma exigência simples: aqueles que criam devem poder viver de suas obras. Esse legado nos honra, mas sobretudo nos obriga a ser dignos dele.”

Paralelamente a esse aniversário, ele também anunciou o pedido oficial da SACEM para a inscrição do direito autoral no patrimônio cultural imaterial da humanidade junto à UNESCO.

O lugar do artista diante da tecnologia

O primeiro bloco do dia colocou o foco no valor da criação na era digital. Pedro Winter, figura de destaque do “French Touch”, deu o tom com um otimismo temperado por vigilância. Para ele, a IA representa uma ruptura comparável à chegada do sampler ou da caixa de ritmos. “É a mão humana que cria a magia”, insiste, lembrando que os músicos sempre souberam desviar as tecnologias — como o vocoder, ferramenta militar que se tornou um ícone musical — para criar “acidentes felizes”.

Por trás dessa oportunidade, Marie-Anne Robert (Sony Music), Bruno Patino (Arte), David El Sayegh (SACEM) e Alexis Lanternier (Deezer) apontam uma ameaça: a da padronização. Se, no nível individual, a IA pode se traduzir em um ganho de criatividade para alguns, os impactos coletivos podem ser uma uniformização dos conteúdos artísticos.

Para Laurent Lafon (comissão de cultura, educação, comunicação e esporte do Senado), o desafio é, portanto, legislativo. Ele relembra a votação de 8 de abril de 2026 no Senado, que inverteu o ônus da prova. A partir de agora, os fornecedores de IA deverão demonstrar que não “saquearam dados” protegidos por direitos autorais para treinar seus modelos. Esse seria um meio de garantir uma distribuição justa do valor das obras diante dos gigantes da tecnologia e, assim, estimular a criação.

A cultura como vetor de vínculo social

Jean-Michel Jarre chega para o SACEM
Day

O segundo momento do dia deslocou o foco para o engajamento social e o enraizamento territorial. O rapper Oli falou sobre a importância dos eventos musicais na educação artística. Ele destacou, tomando como exemplo o Rose Festival, do qual é cofundador, que “para 75% do [seu] público, foi o primeiro festival de suas vidas”. O enraizamento local é, portanto, essencial nessa educação musical. Isso é reforçado por Sibyle Veil, da Radio France, cujas emissoras nos territórios buscam identificar e apoiar novos talentos.

Para Thomas Jolly, diretor das cerimônias dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, e Julie Gayet, diretora do festival Sœurs Jumelles, essa identificação é fundamental. Ela é ainda mais importante porque os artistas são “sensores do espírito do tempo”, capazes de transformar a sociedade, especialmente em questões de diversidade e paridade. No entanto, Julie Gayet lembra que ainda há um longo caminho a percorrer: se 25% dos diretores são mulheres, elas representam apenas 6% das compositoras.

Jean-Baptiste Gourdin, presidente do CNM (Centre national de la musique), revelou em seguida que 43% dos franceses disseram ter ouvido pelo menos uma hora de música por dia no ano passado, e que 81% dos entrevistados consideram a música importante em seu cotidiano. Assim, trata-se “da arte que melhor combina a intimidade individual e a emoção coletiva”.

Por fim, esse momento se finalizou com um consenso: em um mundo onde os algoritmos ocupam um espaço cada vez maior e diante do avanço de correntes reacionárias na Europa, os artistas engajados são garantidores da diversidade e da coesão nacional.

A importância de uma Europa unida em torno dos criadores

O dia chegou ao fim com uma nota política em torno da soberania cultural. Thierry Breton, ex-comissário europeu, lembrou que a Europa dispõe do poder legislativo necessário para regular o mercado interno diante das big techs. Essa discussão foi ampliada por uma intervenção de Björn Ulvaeus, cofundador do ABBA e atual presidente da CISAC (Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores). Ele destacou a necessidade de os criadores permanecerem unidos em escala mundial para não se deixarem impor as regras das plataformas.

Foi, no entanto, Emma Rafowicz, deputada europeia, quem fez as críticas mais contundentes. Ela denunciou uma forma de abandono da defesa dos direitos autorais por parte de alguns governos em favor de uma corrida por “unicórnios” tecnológicos. Também pediu a rejeição da “lei da selva”, diante de um governo que, segundo ela, parece ter em parte abandonado a defesa dos direitos autorais em benefício dos gigantes da tecnologia.

Conclusão

Em conclusão, a CEO da SACEM, Cécile Rap-Veber e Jean-Michel Jarre, lembraram que, se os últimos 175 anos foram os da construção de um modelo de liberdade, os próximos serão os de uma batalha pela autenticidade do espírito humano diante do expansionismo econômico. E esse pedido de inscrição na UNESCO “simboliza essa vontade de consagrar a criação como um bem comum da humanidade, indissociável da democracia”.

Vídeo (Jarre aparece em 03:40:15)

Fontes: Billboard | SACEM

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