Entrevistado pela apresentadora Sarah Russis, durante a inauguração do 5º World Artificial Intelligence Cannes Festival (WAICF), em Cannes, Jean-Michel Jarre apresentou sua visão inspiradora e esclarecedora sobre o uso da Inteligência Artificial na criação.
Na abertura da quinta edição do festival World Artificial Intelligence Cannes, realizada no Palais des Festivals et des Congrès, na capital do cinema, Jean-Michel Jarre deu o tom. Autor e compositor pioneiro da música eletrônica, criador de universos espetaculares e autor de Oxygene, fenômeno internacional, ele foi compartilhar uma convicção forte: a Inteligência Artificial não é o fim da criação — talvez seja seu novo fôlego.
IA, imaginação ampliada
Logo de início, ele surpreende: “Eu sou um ladrão. Os artistas são ladrões”. Uma fórmula deliberadamente provocativa, que ele assume plenamente. “Nós roubamos o que ouvimos, o que vemos, o que lemos”. Para ele, a criação é um ato contínuo de absorção e transformação. Nessa dinâmica, a IA não é uma intrusão, mas uma extensão natural: “A Inteligência Artificial é uma musa moderna. Melhor ainda: ela representa uma imaginação ampliada.”
O artista recusa a nostalgia
“Está quase no DNA humano pensar que ontem era melhor e que amanhã será pior. Isso não é verdade. Caso contrário, não estaríamos aqui”. E ele relembra uma frase herdada da avó: “Não se pode parar o progresso”. Assim, o desafio não é frear a inovação, mas abraçá-la com lucidez: “Quanto mais cedo a adotarmos, mais cedo poderemos explorá-la, utilizá-la… e eventualmente combater seus efeitos negativos.“
A tecnologia como catalisador
Para Jean-Michel Jarre, a história da arte é inseparável da história das tecnologias. “Sem violino, sem Vivaldi. Sem câmera, sem cinema moderno. Sem eletricidade, sem revolução musical. Sem componentes eletrônicos, sem música eletrônica… e sem mim também!”, brinca. A tecnologia nunca matou a arte; sempre foi seu catalisador. “A tecnologia é uma aliada”. E a IA gerará, segundo ele, “os gêneros musicais, as imagens e os filmes do futuro.”
Mas esse entusiasmo vem acompanhado de vigilância firme. Defensor histórico dos direitos autorais, ele lembra uma evidência muitas vezes esquecida: “Num smartphone, a parte inteligente somos nós. Na IA também, a parte inteligente somos nós. Sem os conteúdos criados por humanos — imagens, sons, textos, obras — a IA seria apenas uma arquitetura vazia.”
Uma promessa formidável de democratização
“Nesse ‘bolo digital 3.0’ em plena elaboração, os criadores devem ser ‘parceiros, não espectadores’. A IA hoje se parece com um Velho Oeste”. E, insiste ele: “as regras fazem a diferença entre o caos e a democracia. Assim como a carteira de motorista permite circular livremente e com segurança, um marco claro permitirá que a IA se torne uma alavanca de oportunidades em vez de um terreno de abusos. Não se trata de limitar a IA, mas de fazer dela um verdadeiro renascimento para os artistas.”
Além das questões jurídicas, Jean-Michel Jarre vê na Inteligência Artificial uma enorme promessa de democratização. Jovens criadores, às vezes sem recursos, poderão realizar filmes ou compor obras que eram impensáveis há dez anos. Em países emergentes, especialmente na África, a IA pode favorecer o surgimento de ecossistemas criativos inteiros. Ela não padroniza; ao contrário, pode singularizar.
Uma tecnologia que corrige para revelar
“Nunca é a ferramenta o problema, mas a maneira como a utilizamos. O lápis não é responsável pelo desenho”. Longe da distopia, ele imagina uma IA capaz de reforçar a individualidade. Pesquisas que unem música, Inteligência Artificial e neurociência já mostram como dispositivos podem adaptar o aprendizado instrumental à morfologia única de cada músico. Uma tecnologia que corrige não para uniformizar, mas para revelar.
Diante dos medos, ele lembra que cada revolução artística enfrentou resistências: os pintores temiam a fotografia, o teatro temia o cinema. “A IA não mata profissões, ela as desloca. Redefine competências e abre novos territórios de expressão.”
Aproveitem a Inteligência Artificial
Como conclusão, sua mensagem soa como um manifesto: “Não sejam ingênuos diante da IA, mas não tenham medo da inovação. Não tenham medo da Inteligência Artificial. E aproveitem-na”. Entre prudência e entusiasmo, Jean-Michel Jarre desenha assim os contornos de um futuro em que arte e tecnologia não se opõem mais, mas avançam juntas — impulsionadas por uma imaginação ampliada e uma responsabilidade compartilhada.
Clique nas imagens para ampliar:






Fonte: YesICannes
Views: 6
